fevereiro 09, 2008

MIGRANDO

Farto de chegar a esperar 3 dias para que os posts aparecessem afixados no blog (que ainda por cima é pago), vi-me obrigado a criar uma alternativa.

O Antropocoiso tem agora uma vida dupla: até esta data, aqui (com www ou sem ele) e a partir de agora neste outro endereço.

Paulatinamente, os arquivos irão sendo copiados para o http://antropocoiso.blogspot.com
Este endereço onde me lêem acabará por morrer de morte natural, quando chegar a altura de o voltar a pagar.

Publicado por Paulo Granjo às 04:46 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Imagine all the people

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Só para perceberem um pouco melhor o mal-estar e raiva do povão daqui:

Imaginem que Portugal tem um regime presidencialista e que o Belmiro substituiu o Amorim como Presidente da República, ambos indicados pelo seu partido ex-comunista reconvertido ao hiper-liberalismo, mas que mantém a retórica de outros tempos.

Imaginem que os Espíritos Santos, Jardins Gonçalves, Santos Silvas e quejandos são ou foram ministros e, tal como os presidentes, enriqueceram quando já eram políticos.

Imaginem que, dos dois ricaços que não são políticos, vocês estão convencidos que um deles é sócio do ex-presidente, enquanto ouviram o outro dizer na televisão, há um par de anos e enquanto académico, que não se pode investigar a sério a corrupção, porque as prisões têm condições demasiado más para se prenderem lá pessoas desse estatuto social.

Agora, imaginem que ganham 40 Euros por mês.

Publicado por Paulo Granjo às 04:38 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

«It's the Economy, Stupid» ?

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in Savana, 1/2/2008


Como não sou grande fã dos suplementos económicos, só agora dei com este artigo, ao separar as folhas de jornal que quero guardar e aquelas que servirão para acender o carvão para os grelhados.

Será que, afinal, «It's the economy, stupid!» ?

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Publicado por Paulo Granjo às 10:25 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 08, 2008

Crónicas dos Motins - 5

ALGUNS FACTOS

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foto Savana, 8/2/2008

Terça-feira, ouvi todo o tipo de disparos na estrada da portagem: lançadores de gás lacrimogéneo, caçadeiras de grande calibre, pistolas, kalashnikovs tiro a tiro e em rajada.
Um casal inglês que foi apedrejado e se refugiou no mesmo condomínio vinha chocado por ver a polícia disparar balas reais «randomly» (aleatoriamente, indiscriminadamente) sobre sebes na beira da estrada, atrás das quais se acoitavam ao molho homens, mulheres e crianças que eles nem sequer conseguiam ver.
Um amigo meu entrou em Maputo numa coluna rodeada por viaturas da polícia que disparavam as suas armas (bem reais) para as bermas da estrada.

Uma bala de borracha não se parece em nada com uma bala real, tal como não se parecem as armas que as disparam. Uma bala de borracha é muitíssimo maior, em diâmetro e comprimento, e não pode ser disparada por uma espingarda, pistola-metralhadora ou fuzil de assalto.

As fotos dos jornais, quase todas tiradas por detrás da polícia pois fotógrafo também tem medo, mostram as forças policiais, fardadas ou à paisana (sem margem para dúvidas, pois nesse caso estão a prender pessoas), armadas de kalashnikovs, pistolas e, pontualmente, um ou outro deles com uma arma capaz de disparar granadas de gás lacrimogéneo e/ou balas de borracha.

Quarta-feira, um dos canais de televisão mostrou um passeio de viaturas policiais no Machaquene, disparando para as bermas e baleando uma pessoa junto dos repórteres.

Quinta-feira, imediatamente depois de o canal estatal de televisão apresentar uma peça em que o Hospital Central de Maputo declarou ter tratado 78 pessoas feridas por balas reais, e em que um par delas foram entrevistadas, o comandante nacional da Polícia reafirmou em estúdio que as forças sob o seu comando só dispararam gás lacrimogéneo e balas de borracha.

Publicado por Paulo Granjo às 09:58 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 07, 2008

Crónicas dos Motins - 1

UMA PEQUENA AVENTURA

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Antes de mais, estamos bem!
(Embora esta declaração vá chegar atrasada para acalmar preocupações, pois este blog - pago, ainda por cima - esteja a afixar os posts 2 ou 3 dias depois de serem escritos.)
Mas vamos à estória:

Aproveitámos este fim-de-semana alargado (não pelo Carnaval, mas pelo Dia do Herói Moçambicano) para dar um salto à África do Sul, em cumprimento das exigências do peculiar Visto que nos obriga a sair do país de tanto em tanto tempo.

Terça-feira, lá regressou a minha família num transfer do Kruger Park, junto com o respectivo condutor e 4 simpáticos turistas portugueses.
Atravessámos a fronteira pelas 10h30m, mas nenhuma autoridade nos avisou de qualquer acontecimento anormal - como, por exemplo, os tumultos que desde as 7 da manhã estavam a virar Maputo do avesso.
E a verdade é que chegámos à portagem da Matola sem nada vermos de estranho senão uns polícias que, para os lados da Casa Branca, pareciam estar a chatear algum vendedor de pneus que não pagara "refresco".

Mas a portagem estava fechada. Sobre a cidade, viam-se várias colunas de fumo. Pensámos primeiro num incêndio, embora fosse estranho que estivesse a ocorrer ao mesmo tempo em zonas tão afastadas. Ficámos a saber o que se passava quando telefonei para a senhora que nos ficara com a cadela, a avisar que a iríamos buscar mais tarde do que o previsto.

- Ai, doutor! Nem pense em vir! Estão a fazer greve por causa do aumento dos "chapas" e não deixam os carros passar, na cidade toda. Aqui, já queimaram carros e no Alto Maé um rapaz levou um tiro e não se sabe se vai conseguir viver.

Com o "garrafão" da portagem cada vez mais cheio, lá convencemos o condutor a recuar para a estação de serviço mais próxima. Volta para trás, regressa para a frente, e a zona continuava a parecer calma. Também o posto de gasolina parecia calmo, pelo menos até os 3 seguranças privados que lá estavam evacuarem precipitadamente o dinheiro da caixa...
Por sugestão da Marta, tinha entretanto tentado telefonar, sem sucesso, para uns amigos que moram ali perto, num condomínio mais ou menos seguro. Quando finalmente consegui resposta e declaração de boas vindas, o pessoal concordou em procurar lá abrigo.

Foi uma decisão acertada. Uma hora depois, essa mesma estação de serviço teve que ser ocupada pela tropa. E um amigo que preferiu ir em frente, através daquilo que na altura era uma estrada coalhada de carros imobilizados, chegou a casa com dois pneus rebentados à pedrada(!), embora tivesse passado as barricadas numa coluna rodeada de carros da polícia que disparavam gás lacrimogéneo, espingardas e kalashs indiscriminadamente para as bermas.

Nós regressámos, afinal, por onde já tinhamos passado duas vezes na última meia-hora, sem nada ver de ameaçador. Desta vez, um grupo de mulheres começou a gesticular na outra faixa e, antes de percebermos se aquilo era amigável, gozão ou hostil, vimos um pneu a arder no meio da nossa faixa e entrou-nos um pedregulho por um vidro dentro.

- Deitem-se! Ninguém está ferido?
(Ou, na primeira frase solta pela Marta, «Everibody lie down!»)

Sim, um dos portugueses estava ferido, mas não era grave. As pedras continuavam a cair mas, felizmente, apenas acertavam na chapa e o condutor manteve a velocidade e o controlo do carro, ao contornar os pneus em chamas.
Chegados ao cruzamento, lá conseguimos dar as voltas necessárias para chegar ao portão certo e convencer o segurança a deixar-nos entrar.

Já dentro, ficámos um bocado aparvalhados - eu, um pouco menos, pois tinha andado entretanto a servir de scout pedestre, por o primeiro portão do condomínio estar fechado. Cada um viu se estava mesmo bem, a minha filha chorou por fim um pouco, surpreendentemente pouco, e não estávamos à espera de mais do que a relativa segurança daqueles muros.

Era não contar com a hospitalidade e solidariedade da esposa do meu amigo (que por acaso tinha voado em trabalho nesse dia), que a todos abriu as portas de casa e todos tomou à sua guarda.
Pouco depois, acompanhando as notícias que davam conta da dimensão dos tumultos e ouvindo a confusão ali mesmo ao lado, já torneávamos eventuais preocupações com a precaridade da nossa segurança comentando (aqueles que os conheciam), os ruídos que nos chegavam.

- Olha: agora já não é gás lacrimogéneo e caçadeiras. São tiros de pistola.
- Ah! Agora são rajadas de kalashnikov!

Antes do jantar, já a nossa anfitriã (apoiada pela Marta, que durante umas horas falava inglês com os moçambicanos e português com os sul-africanos) tinha conseguido o impossível: camas para aquela gente toda, na sua casa e em mais duas. O que tinha começado como uma experiência assustadora e bem perigosa começou a parecer-se (apesar do perigo iminente que continuava a existir) com um contratempo relativamente pouco desconfortável.

Pela hora de jantar, os restantes telejornais trataram extensivamente o que se estava a passar. A estatal TVM gastou uns 90% do tempo a falar das ultrapassadas cheias do Zambeze.

A meio da noite, soubémos que as novas tarifas de transporte tinham sido suspensas.

Quarta-feira, com os tumultos também suspensos, voltámos a casa, fazendo slalong entre os restos de pneus, blocos de cimento arrancados sabe-se lá de onde e bocados de árvores que continuavam no meio das ruas. Em frente ao mercado de Malanga, as vendedoras varriam a estrada, para recriar um ar de normalidade que atraísse clientes.
Olhando para as pessoas nesse dia, nada parecia ter acontecido - a não ser por não se verem chapas em circulação e por, aqui e ali, alguns homens meio esfarrapados terem uma expressão de dignidade pouco habitual, os comerciantes paquistaneses tratarem de forma menos brusca os seus empregados e os condutores cumprirem as regras de trânsito.

Maputo era uma cidade bem mais simpática, nesse dia, do que costuma ser.

Publicado por Paulo Granjo às 10:06 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 06, 2008

Crónicas dos Motins - 2

ESTAVA ESCRITO

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in Savana, 1/2/2008

Não seria preciso ser profeta ou adivinho para dizer aquilo que ficou escrito, 5 dias antes dos acontecimentos, no penúltimo parágrafo do Editorial do jornal Savana.
A única surpresa possível será que os tumultos fossem tão virulentos e generalizados e que, numa população que já aguentou tanta coisa e continua a aguentar tanta mais, rebentassem logo no dia de entrada em vigor das novas tarifas dos "chapas".

Que é isso de "chapas" (oficialmente, "transportes semi-colectivos")? São velhas carrinhas de 9 lugares (ver foto no próximo post), recondicionadas para amontoarem 19 pessoas sentadas, para além daquelas que tenham suficiente pressa para seguir meias de pé, meias dobradas, com o rabo virado para a cara de outros passageiros ou saindo alegremente pela janela.
Porque é que as pessoas os usam? Porque a companhia pública de transportes tem 40 machimbombos (autocarros) a cair de podres para toda a cidade de Maputo, que ultrapassa largamente o milhão de habitantes.

Um percurso de chapa custa, na cidade, 5 ou 7,5 Meticais (cerca de 15 ou 22 cêntimos de Euro), conforme a distância. Para complicar a questão, algumas pessoas têm que usar dois percursos de chapa para o seu destino e, desde há uns tempos, os "chapeiros" descobriram um novo truque: fazem apenas parte do seu percurso e os passageiros são obrigados a transbordos e a pagar em cada um dos chapas.
Podemos contudo dizer que alguém com a sorte de usar apenas um chapa para o trabalho ou a escola gastará 210 ou 315 Meticais (6 ou 9 Euros). Não parece muito, mas o salário mínimo são 1.400 Meticais (40 Euros), há muito boa gente que só ganha 1.000 ou 800, e um saco de arroz custa mais de 500 Meticais.
Os aumentos decididos pelo governo (lógicos, numa perspectiva economicista, dado o aumento dos combustíveis) são de 50% para os percursos mais curtos e de 33,3% para os mais longos. Should I say more?

Talvez "I should", mas seria muito longo. Porque, temo bem, o problema não são apenas os chapas, mas uma vida que se torna cada vez mais insustentável, uma ausência de alternativas futuras e um sentimento de que, por parte de quem manda e de quem possui (alguma coisa, ou escandalosamente muito), apenas se é objecto de desprezo e de indiferença pela situação em que se vive.

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Noticias, 2/2/2008

Quanto às causas da fúria popular, não será preciso cavar muito fundo.

É o custo de vida que sobe, os salários que não aumentam ou descem, a necessidade de mobilizar a criatividade de toda a família - trabalhando os que conseguem, biscatando outros, vendendo qualquer coisa uns terceiros, numa cidade em que meio mundo anda a vender coisas ao outro meio, em porções cada vez menores - para chegar a um mínimo de subsistência que qualquer aumento como este põe em causa.

É o obsceno grau de diferença no acesso à riqueza e a sua ostentação.

É - pondo por outras palavras aquelas que o editorialista deixou escritas - o sentimento de um Estado padrasto que abandonou os seus filhos ao desenrasca perante as leis de um mercado que não existe, numa economia que tão pouco existe fora do "informal", do comércio e dos bons (ou óptimos) empregos a que não têm acesso, e em que os decisores políticos são os maiores patrões e fortunas, tendo aí chegado por já serem políticos quando decidiram privatizações e o dinheiro começou a chover do exterior.

Isto explica tudo? Uma grande parte.

Isto justifica o que aconteceu? Em grande parte.

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Que fique claro: não gosto mesmo nada de levar pedradas e não sei que reacções teria, caso a minha filha tivesse sido ferida com gravidade.

É também evidente que, para parar o trânsito na cidade, os manifestantes poderiam fazer barricadas intransponíveis, em vez de alguns pneus a arder, por onde os carros podiam tentar fugir e ser atacados. O seu objectivo (parar a cidade) não tornava necessário o ataque às viaturas e aos seus ocupantes.
Aqui, há uma outra vertente, nada simpática ou aceitável, mas compreensível: a raiva e vingança para com quem tem muito mais, parece achar natural tê-lo e os outros não, e não põe a hipótese de o perder.

Mas o tumulto que parasse a cidade, esse, temo bem que fosse, infelizmente, a única forma de as suas queixas serem seriamente ouvidas.
Alguém me disse em Moçambique, no ano passado: «Com isto da democracia, podemos dizer o que queremos. Mas ninguém liga ao que dizemos.»
É uma frase que poderíamos bem ouvir em Portugal e que, em parte, se pode aplicar à maioria dos países onde há, pelo menos, um mínimo de liberdade de expressão. Mas há por cá algumas particularidades que tornam a situação diferente em natureza/qualidade e não apenas em grau/quantidade.
Não me saem da cabeça, acerca disso, 3 artigos de um número da Análise Social acerca de Moçambique, que tenho vindo a editar e sairá em meados do ano.

Num deles, João Pereira mostra como as vitórias eleitorais do partido que está no poder desde a independência nada têm a ver com um bom desempenho económico da governação (que só o presidente do Banco Mundial parece ver, conforme reafirmou na véspera dos tumultos) mas, fundamentalmente, com a incerteza e medo daquilo que poderia ser a acção governativa da única força política que - infelizmente, digo eu - poderia constituir uma alternativa: a mesma Renamo que foi o brutal inimigo do governo durante a guerra civil. Ou seja, governa-se pressupondo que, faça-se o que se faça, o medo e a memória dos eleitores tradicionais garantirão que o poder seja mantido.

Noutro artigo, Jason Sumich cita uma sua amiga, filha das actuais elites politico-economico-sociais, num discurso que parece saído da boca de um(a) qualquer herdeiro(a) de grandes colonos de outros tempos: «Há aqui uma grande diferença que não creio que compreendas. Passas o teu tempo com pessoas como nós, que somos educados e ocidentalizados. Aqueles de entre nós que são privilegiados têm gostos e desejos que são muito diferentes dos restantes. É realmente uma questão de interesses. A maioria das pessoas neste país são camponeses, têm uma machamba e ficam satisfeitos com isso. Não precisam realmente de educação ou de mais e, de facto, não o querem. Muitas pessoas deste país não estão interessadas. Querem que as deixem em paz para cultivarem as suas machambas. Somos nós, os privilegiados, que queremos e precisamos das outras coisas.» Ou seja, as grandes elites económicas e políticas, que em geral são uma mesma e única coisa, parecem achar que os "pretos atrasados" não querem nem precisam de grande coisa, apenas que os deixem fazer a sua vidinha como puderem - e que, portanto, nada lhes é em última instância devido.

No terceiro artigo que não me sai da cabeça, Harry West mostra como, numa zona do país mítica para a Frelimo e para a luta de Libertação Nacional, o facto de os dirigentes políticos não se limitarem a «comer mais» (direito que lhes é popularmente reconhecido), mas «comerem sozinhos» à custa da fome de todos os outros, é traduzido em acusações de feitiçaria maléfica e canibal - ao contrário da feitiçaria em benefício e protecção de todos, que é sua obrigação e legitimaria a sua posição de poder.

Em suma, as pessoas têm boas razões para pensar, com base na sua experiência empírica, que o "pai" não protege os "filhos" nem sente responsabilidades relativamente a eles, e que meras queixas e lamúrias não seriam mais ouvidas do que todas as anteriores.
As pessoas fartam-se.
E, quando outros meios lhes são negados para, dizendo o que querem, ser ouvido o que dizem, só lhes restam estas tristes soluções - por muito que tal nos possa doer no espírito, no corpo ou na propriedade.

Publicado por Paulo Granjo às 03:48 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Crónicas dos Motins - 3

MULHERES "DE ARMAS"

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um "chapa", pomo da discórdia (foto Savana)

Vi-me ontem no meio de mulheres "de armas":

Antes de mais (com um enorme obrigado) a nossa amiga, que nos acolheu a nós e a mais 4 turistas e 1 condutor que não conhecia de lado nenhum, procurando e arranjando, com uma espantosa eficácia e sempre discreta, alojamento para essa pequena multidão (entretanto acrescida do pai de outro amigo seu), na sua casa e nas casas limítrofes.

Depois, a minha mulher, normalmente nervosa e preocupada em relação a possíveis perigos mas que, face ao perigo bem real, muito contribuiu para a calma dos outros e, depois disso, foi o também discreto e eficaz lugar-tenente da nossa anfitriã.

Por fim (e suscitando ainda mais a minha admiração), a minha filha. Sob as pedradas, disse-me muito baixinho «Pai, tenho medo», mas continuou a seguir atentamente as minhas instruções. Chegados a relativa segurança, um pequeno chorinho de descompressão - espantosamente curto, para uma criança tão nova. Depois disso, um integrar descomplexado e verbalisado do que acontecera e uma naturalidade que, também ela, muito contribuiu para a calma e boa disposição de todos.

Tenho, de facto, sorte com as mulheres que me rodeiam!

Publicado por Paulo Granjo às 02:54 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Crónicas dos Motins - 4

LUSÓ FACTO

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Aos cidadãos portugueses que ontem , no meio dos motins, quisessem reportar às autoridades diplomáticas a sua presença em Maputo, o seu paradeiro e situação, ou mesmo pedir ajuda, ninguém respondia no telefone do Consulado.
No telefone da Embaixada, respondia um senhor dizendo que «é feriado na Embaixada» e, para além disso «há problemas na rua»; «telefone amanhã» porque «hoje não está ninguém».
Tentei que tomasse nota dos nomes e paradeiro dos 7 cidadãos portugueses que faziam parte do meu grupo, esclarecendo que tinhamos sido atacados e havia um ferido ligeiro. Recusou, mandou-me de novo telefonar no dia seguinte e, quando tentei insistir para que apenas assentasse esses dados num papel, desligou-me o telefone na cara.

Publicado por Paulo Granjo às 02:30 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

fevereiro 01, 2008

«O Preço Certo» bloguístico

Ora vamos lá a adivinhar:

Quanto é que custa, em Euros, meio litro de água oxigenada, numa farmácia de Maputo?

A primeira pessoa que acertar terá direito a um exemplar de «Os bois para os boys», livro que, apesar do seu título aparentemente crítico e jocoso, é a apologia de um projecto de repovoamento pecuário pago por uma agência de desenvolvimento estrangeira, que teve como principais consequências tornar os ricos do distrito mais ricos, os pobres mais pobres e aumentar as assimetrias no acesso aos recursos (conforme o falecido Paulo Langa demonstrou, em 2004)

Publicado por Paulo Granjo às 03:09 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 31, 2008

Farsas e tragédias

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in Domingo


Numa altura em que o norte de Moçambique é desflorestado em grande velocidade por explorações madeireiras rapaces e descontroladas, as actuais retóricas acerca de uma tal de “Revolução Verde” (que não é a da Líbia) traz-me sempre à memória uma velha anedota e uma ainda mais velha citação.
A coisa acaba sempre, assim, por cair um bocado no jocoso. Esse tom passa bastante pelo post que se segue e, para vos convencer a lê-lo, começo pela anedota:

O patrão de uma lojeca de esquina repreendeu o empregado por ter dito a um cliente que não tinha o produto que ele pedira.
- A gente nunca diz que não tem! Não temos isso, mas temos sempre outra coisa que serve muito bem para o que o cliente quer. É preciso é convencê-lo.
Pouco depois, dizia o empregado a uma cliente:
- Pois… papel higiénico de momento não temos. Mas, para o que a senhora deseja, temos aqui uma lixa nº3 que é um mimo!

O que possa ser a tal de “Revolução Verde” (para além do que em seguida explicarei), ninguém sabe porque ninguém diz. O que se sabe, porque é a única coisa que entusiasticamente se fala e diz planear, é que ela é, nem mais nem menos, a produção extensiva de bio-combustíveis para um mercado internacional que se espera em crescimento exponencial – sendo de pressupor que isso só possa a ser feito tanto pelos camponeses, em detrimento da produção alimentar, como em grandes farms, estas provavelmente instaladas em terrenos de onde os camponeses sejam corridos, em troca de locais a que nos EUA se chamariam “reservas”.
Não interessa se o representante local da FAO disse, com pezinhos de lã (pois, por aqui, só falam com botas cardadas o Banco Mundial e o FMI), que isso agravaria os problemas de fome e segurança alimentar. Não interessa se os velhos teóricos periféricos do subdesenvolvimento, embora não tenham criado receitas eficazes para resolver o problema, apontaram bastante bem as suas causas e mecanismos de reprodução – incluindo, em lugar de destaque, estes grandes projectos/desígnios de monoculturas para exportação sem valor alimentar local. É, pelo menos na retórica, um imperativo de Estado – apadrinhado, claro está, pelos ditos BM e FMI – e isso basta.

Convém notar que a agricultura é, em Moçambique, uma coisa um bocado chata para as estatísticas.
Embora produtos agrícolas de primeira necessidade sejam, no essencial, a única coisa que o país produz para além de electricidade (Cahora Bassa), alumínio (Mozal), consultorias para as ONGs e, agora, madeiras nobres (enquanto as houver), e embora uma parte não negligenciável dessa produção acabe por ser comercializada, é-o nessa cena antiquada que passa ao lado de lojas registadas, impostos e controle estatal. Sobretudo, ao pessoal (seja produtor ou comprador) dá-lhe para comer esses bens económicos, que por isso não podem ser exportados.

Mas há sempre, como saída, a grande lição do patrão da lojeca, tão bem aprendida pelo seu empregado:
- Não temos petróleo (até ver), mas vamos cobrir o país de futuros bio-combustíveis!
- Não temos a colonial produção compulsiva de algodão (de que tão justamente se disse todo o mal que havia a dizer), mas teremos a “globalizada” Revolução Verde!

(Como antes se poderia ter dito:
- Não temos a Lei do Passe do apartheid, mas temos a Operação Produção!)

Entretanto, novas nostalgias e substituições se perfilam, num outro registo, como prefigura o artigo que ilustra esta diatribe:
- Já não temos Campos de Reeducação, Aldeias Comunais e deportações para o Niassa, mas temos uma nova Revolução (Verde) para organizar o desorganizado povo!
- Não mandamos em nós, mas mandamos nos camponeses!

Chega agora a citação:

O velho Marx tinha dito, no “18 de Brumário de Louis Bonaparte” se a memória não me atraiçoa, que a história se repete, uma vez como tragédia e a segunda como farsa.

Creio que o meu amado barbudo se enganou:
As réplicas farsolas podem ser muito mais do que uma. Podem até tornar-se um hábito.
E essas farsas podem facilmente transformar-se em tragédias.

Publicado por Paulo Granjo às 05:36 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 26, 2008

(Re)Parabéns, Irene Pimentel!

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Isto é resultado de uma mistura de nomadismo profissional, globalização da informação e terceiro-mundismo:

Como a coisa aconteceu quando me estava a instalar em Maputo, ainda de malas às costas e sem acesso à net, só há minutos atrás fiquei a saber da atribuição do Prémio Pessoa 2007, numa casual referência cruzada durante uma navegação acerca de outro tema. E deu-me um enorme prazer sabê-lo.

Muitos parabéns, minha "comadre" Irene Pimentel!

Publicado por Paulo Granjo às 11:31 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 25, 2008

«It’s just the starting engine» - The status of spirits and objects in south Mozambican divination

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A current complete tinhlolo set (image 1)

Tenho-me esquecido de ir actualizando os XXL - ou seja, os artigos que vão sendo publicados em papel.
Uma das razões é o trabalho que dá reformatar as notas e inserir as imagens uma a uma...
Cá fica um deles, a publicar no livro Divination on South-Saharan Africa, editado por Wouter van Beek e Philip Peek na Brill Publishers.
Em "continue a ler".

Continue a ler "«It’s just the starting engine» - The status of spirits and objects in south Mozambican divination"

Publicado por Paulo Granjo às 07:42 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 23, 2008

Até as mortes, meu Deus?


O tratamento noticioso das actuais cheias no centro de Moçambique cada vez me deprime mais.
Deixei escrito, há 4 dias atrás, que uma morte é uma desgraça absoluta. Os números são indicadores importantes (uma coisa é morrerem 7 pessoas, outra é morrerem 7.000) mas, em termos humanitários, apenas isso.
Entretanto, ficaram-se ontem a saber, pelo jornal Notícias, as causas de morte das 7 pessoas contabilizadas como vítimas das cheias. 4 morreram devido a arrastamento pelas águas e 3 por ataques de crocodilos, quando pescavam e tomavam banho.
Fiquei a saber que, ou as pessoas não pescam nem tomam banho quando não há cheias, ou até os mortos se manipulam.

Publicado por Paulo Granjo às 06:08 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 22, 2008

Terra à vista

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foto Notícias

Com a diminuição das descargas de Cahora Bassa, a água vai baixando no Zambeze e a crise parece estar passada.

Volto a louvar o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, pela abordagem prospectiva e atempada da situação.
Comentava hoje um colega, de forma algo blasé, que são previsíveis as zonas que irão alagar. Sê-lo-ão, certamente; mas para transformar essa previsibilidade em resposta eficaz é necessária planificação, organização e competência.
No dia em que (dream on...) essas características passem a estar presentes, ao nível exigível, nas instituições públicas - aqui ou noutros países, incluindo as estruturas de protecção civil - deixarei de me sentir na obrigação de as louvar.

A partir de agora, lá voltará o pessoal a casa - nuns 20.000 casos, segundo as estimativas iniciais, a reconstruir.
Voltarão também as polémicas citadinas acerca da suposta "burrice" e "casmurrice" das populações zambezianas.
Depois de cada cheia nesta zona, as instituições estatais costumam dar apoio em cimento, chapas de zinco e comida, a quem construa casas em alvenaria nas zonas altas. As pessoas têm, pelo seu lado, que fazer os tijolos e construir, o que não é complicado face às tipologias de habitação e aos saberes existentes.
Acontece que grande parte das pessoas costumam receber os materiais e ir construir em zonas alagáveis, apesar das acções de sensibilização.
Para alguma gente discutindo o assunto na poltrona da sua sala, afinal, «eles (e/ou os respectivos régulos) estão mesmo a pedi-las».

É esquecer, para além das razões simbólicas e micro-políticas, uma coisa simples: Sobretudo para populações ribeirinhas, porque é que se havia de partir os rins a cultivar terras secas e pouco férteis, quando estão ali disponíveis terrenos de aluvião, já bem conhecidos?
Depois, já mostrava Adolfo Yañez -Casal, no seu livro Antropologia e desenvolvimento : as aldeias comunais de Moçambique (aqui), quando uma pessoa se desloca a pé para fazer trabalhos agrícolas, a distância é uma variável essencial da racionalidade económica. A partir de certa altura, o tempo gasto na ida e vinda à machamba torna-se contraproducente. Ou seja, cultivar à beira rio implica não morar a grande distância da margem.

Com tanto dinheiro correndo para tantos estudos (quer os das sucessivas "modas" academico-oénegéticas, sempre repetitivos entre si, quer os mais absurdos que imaginar se possa), talvez fosse esse o estudo que realmente valesse a pena: como resolver este problema, a contento da segurança e das necessidades das populações?
Talvez se viesse a ver que alguns saberes antigos, como a dupla residência sazonal, mereceriam ser recuperados. Ou talvez se descobrisse, entre as pessoas, o germe de novas soluções.

Publicado por Paulo Granjo às 09:36 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 20, 2008

Tragédia das calamidades

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foto Savana

Fui hoje almoçar a uma conhecida esplanada de Maputo, que parece concebida para fazer com que os sul-africanos de origem europeia se sintam em casa.
Excepcionalmente, para um domingo de verão, não havia muitos representantes dessa digna e autoproclamada tribo africana. Em compensação, na mesa ao lado terminavam a sua refeição 3 italianos e 2 franceses.
Chegada a (sua ) hora do whisky e da cigarrilha, começaram a discutir com alguma gulodice, primeiro nas suas línguas respectivas e depois em inglês, all together, a quantidade de fundos que as suas conhecidas e respeitadas ONGs iriam conseguir angariar, «para depois das águas baixarem».
Que fique claro: aqueles homens não estavam a discutir (ao contrário do que noutras vezes ouvi abertamente a outra nacionalidade, acerca de outros assuntos) quanto dinheiro iriam conseguir meter no próprio bolso. Quanto a isso, suponho, bastar-lhes-ão os salários hiper-inflaccionados e o nível de vida que nunca poderiam ter nos seus países respectivos. A questão era dinheiro para projectos dirigidos pelas suas organizações.
A certa altura, um mais novato ou ingénuo disse algo que todos estavam carecas de saber e de ter em conta: «Depende muito da forma como o problema for apresentado nos media europeus».

No sentido original da palavra (grego e dramatúrgico), há uma tragédia com as calamidades, talvez também em muitos outros sítios, mas certamente aqui. A sua origem está no facto de, tirando as vítimas directas, quase toda agente beneficiar com elas.
O governo ganha mais fundos internacionais e mais tolerância para com o incumprimento de compromissos ou metas assumidas (tem apenas que gerir com cuidado a intervenção de ONGs e organizações internacionais, ou depois é difícil livrar-se da sua presencça no terreno).
A todos os níveis da administração, há quem ganhe com a abundância de meios financeiros e materiais ali à mão de semear, em alturas de confusão que justificam todas as discrepâncias entre o recebido e o utilizado no terreno.
Nos bairros populares, ainda hoje famílias pobres mas com alguma capacidade de pequeno investimento vivem da revenda à peça de "fardos das calamidades" oferecidos para as vítimas das cheias de 2000 e seguintes, mais tarde vendidos em leilões oficiais ou por quem então os desviou.
Os seus ainda mais pobres clientes têm com isso acesso a peças básicas de vestuário a preços comportáveis.
As ONGs reforçam os seus meios, conseguem sustentar e justificar as suas pesadas e caríssimas estruturas (caras não apenas com estrangeiros; para que não roube, paga-se a um contabilista local um salário líquido de 3.000 dólares, num país em que o salário mínimo é de uns 65), podem apresentar relatórios quantitativamente impressionantes e capazes de escamotear a ausência de resultados ou efeitos preversos por que, na maioria dos casos, se costuma pautar a sua acção corrente - e, afinal, legitimar a sua existência e custos.

Mas, para isso, uma boa calamidade é, como desnecessariamente salientava o novato da mesa ao lado, uma calamidade grande e descontrolada.

Pergunto-me se será por isso, ou por mera avidez mediática pelo sangue, que as primeiras reportagens internacionais foram factualmente erradas e, aparentemente, tão exageradas.
Pergunto-me se será por isso, ou por previdência em relação ao possível evoluir da situação, que, com uma previsão inicial (e aparentemente pessimista) de 90.000 vítimas, chegou ao porto da Beira comida para 250.000 pessoas.
Pergunto-me se será por isso que os números de evacuados flutuam tanto e que, somando os números de todos os campos de reassentamento mencionados nos media, se fica tão longe dos 63.000 oficiais.
Pergunto-me se será por isso (e pelo parágrafo anterior) que se fazem grandes parangonas com a suposta instigação dos régulos (assim, no generalizado) ao abandono dos campos de reassentamento e regresso a zonas alagadas, quando é apenas mencionado um caso, numericamente irrelevante.

Neste quadro, também, espanta-me que um vice-director do INGC responda aos media que os meios disponíveis ainda são suficientes, quando o seu governo acabara de conseguir, de estados estrangeiros, que o orçamento de combate a estas cheias venha a subir de 3,2 para 32 milhões de dólares.
Honestidade? Ingenuidade política da parte de alguém que raciocine essencialmente como técnico?

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janeiro 19, 2008

Voltemos ao que interessa

Zambeze.JPG
foto Savana

Uma morte é uma desgraça absoluta. Sete mortes, são 7 desgraças absolutas - e tudo o mais se torna contabilidade.
No entanto, no meio das confusões mediáticas acerca da cheia actual (desde a cidade de Tete submersa, inventada pela BBC, à încongruência de números e à sensação de quase rotina transmitida em jornais moçambicanos), há uma coisa que se vai tornando evidente e muito me agrada salientar:

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades parece dispor dos meios suficientes para lidar eficientemente com a situação e estar a abordá-la da forma mais correcta. As intervenções e as evacuações estão a ser sobretudo preventivas, prospectivas e atempadas - ou seja, estão a ser feitas antes de a ameaça sobre cada zona específica se transformar em alagamento e em pessoas sob perigo imediato, ou a flutuarem mortas sobre as águas.

É uma questão de opção estratégica, bom senso e organização.
Numa frase que deve ter deixado arrepiados os negociantes das calamidades e os sôfregos de "ficarem na fotografia" com tragédia alheia em pano de fundo, o director do referido Instituto declarou que «a nossa aposta de momento é evitar uma catástrofe humanitária». Antecipando-se a ela, acrescentaria.
Embora seja essa a sua obrigação, aplaudo entusiasticamente (até pelo facto de os poderosos terem obrigações não querer dizer que elas sejam cumpridas, e muito menos com eficiência) e fico satisfeito, pelas pessoas afectadas.

Confesso a minha curiosidade em, qualquer dia, conhecer este homem. Cheira-me que se preocupa bastante mais em estudar os dossiers, planificar e rodear-se de colaboradores competentes do que em pavonear sinais exteriores de poder. A ser esse o caso, espero que uma atitude tão contrastante não lhe venha a trazer dissabores.

Publicado por Paulo Granjo às 05:57 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 16, 2008

Novo record

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33 graus dentro de casa.

Como é que vocês querem que eu escreva alguma coisa inteligente ou interessante, para aqui ou para outro lugar?

Publicado por Paulo Granjo às 12:45 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 10, 2008

Aviso à navegação


Não sei porquê, mas os últimos posts não foram afixados aqui, mas apenas nas categorias.
Como esses e quase todos os seguintes deverão aparecer na categoria "Moçambicando" (veja-se lá no final da página), mais vale ir lá dando uma olhadela, quando visitarem este vosso criado.
Abraços,

Publicado por Paulo Granjo às 05:37 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 09, 2008

Dilema alimentar

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Preparava-me eu, ontem, para grelhar este colorido peixe-papagaio quando me assaltou a dúvida:

Como-o ou emolduro-o?

Publicado por Paulo Granjo às 07:25 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 04, 2008

Tempestades e feitiços

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Estava eu, ontem à noite, a fazer o passeio do xi-xi com a cadela quando se viu um vago relâmpago muito ao longe, sem sequer se ouvir trovão. Chegou, no entanto, para começarem a cair umas pinguitas de água e, talvez um minuto depois, uma chuvada monumental. O costume.
O que não era costume foi chegar, fugindo à chuva, e encontrar fechada a porta exterior do edifício onde vou habitando.
Cadê o guarda, que é a única pessoa a ter essa chave? Batendo desesperado à porta, encharcado que nem um pinto, espreitei pela adjacente parede de tijolos ocos "decorativos" e lá descortinei essa instituição local. Encolhido, tentava esconder-se atrás da porta.
Foi preciso apelar à minha esquecida voz de ex-oficial de artilharia e berrar, em desespero: «Abra a merda da porta, seu caralho!»
Atabalhoadamente, abriu e balbuciou qualquer coisa. Tinha acumulado 3 cadeiras de plástico contra a porta, como num filme de desenhos animados.

Qualquer pessoa que conheça um pouco da escrita etnográfica acerca desta parte do mundo perceberá logo este terror por uma tempestade, mesmo tão distante, e as quase infantis medidas de protecção. O nosso bom guarda terá feito ou encomendado um feitiço qualquer e, como tal, tornou-se o alvo preferencial dos raios e das ameaças espirituais tempestuosas.

Suponho que muitos leitores, incluindo colegas, achem este incidente do quotidiano muito exótico, interessante e excitante.
A mim, molhado até aos ossos e sabendo o que a casa gasta, só me ocorreu pensar: «Santa paciência!...»
E, depois, resmungar entre dentes um pouco caridoso «Rai's partam!»

Publicado por Paulo Granjo às 07:40 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

janeiro 01, 2008

Bom 2008!


Macaneta.JPG

Ano velho: 36 graus à sombra, 28 dentro de casa.
Ano Novo: 36 graus à sombra, 28 dentro de casa.

Mas alguma coisa esperamos, sempre, que mude.
Que, para todos vocês, mude para melhor.
Nós, por cá, todos bem.

Publicado por Paulo Granjo às 11:02 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

dezembro 22, 2007

Não estamos sós

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Haverá quem diga que é por ser África.
Mas, mesmo passando ao lado do facto de essa vaga ideia de "África" corresponder a uma realidade enorme e mais diversificada do que a Europa, creio que poderia acontecer em qualquer cidade onde, no meio dos prédios, reste algum terreno vago e vegetado. Nem sequer baldio (que aqui não é, mas de culturas); apenas vago.
Chegada a noite, chega também uma vozearia de grilos, cigarras e sapos que, junto com outras bichezas mais discretas, não há como ignorar.
Fumando o cigarrinho na varanda das traseiras, não é sequer um pensamento. É uma evidência tão natural que apenas é capaz de surpreender um pouco, por contraste, quando nos lembramos dos nossos velhos hábitos de bichos urbanos: Não estamos, de todo, sós.

Publicado por Paulo Granjo às 08:15 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

dezembro 14, 2007

«Gracias a la vida

Um discurso de agradecimento é um discurso de agradecimento, dirão muitos de vós. É uma coisa que, com mais sinceridade ou mais formalismo, pouco adianta e pouco atrasa.
Talvez.
Mas transcrevo aqui, em "continue a ler", o discurso de agradecimento do Prémio Sedas Nunes 2007 porque, de facto, me sinto agradecido às entidades mencionadas - sejam elas pessoas, o ensino público, instituições ou perspectivas daquilo que vale a pena fazer no trabalho científico.

Continue a ler "«Gracias a la vida"

Publicado por Paulo Granjo às 09:18 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

dezembro 04, 2007

Estão todos convidados

entrega PSN.JPG

Para quem não sabe, o ICS fica numa rua sem saída com o pomposo nome de Av. Prof. Aníbal Bettemcourt, que parte de Entre Campos, entre o edifício dos serviços da Câmara e a Biblioteca Nacional.
Bem vindos!

Publicado por Paulo Granjo às 07:13 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 27, 2007

Boas notícias também são notícia

A minha filha gosta de histórias com final feliz.
Eu gosto de boas notícias. Não para imaginar o mundo mais cor-de-rosa. Por si só, pelo prazer de saber que aconteceram.

É bom saber que, conforme informa o Público de hoje, os habitantes do prédio de Setúbal cujos últimos andares rebentaram há uns dias estão a ser tratados adequadamente, com uma eficiência da parte da Câmara, do Governo Civil e (pasme-se!) das seguradoras que só lhes dão razões para dizer bem dessas instituições e empresas. É muito bom saber que, atingidas por um acontecimento que ninguém deseja para si, foram rapidamente asseguradas a essas pessoas as condições que sempre deveriam ser disponibilizadas em casos afins.

É menos bom que a razão para que isso seja notícia não derive do facto de a coisa ter acontecido, mas sim de os acontecimentos corresponderem à história do "homem que mordeu o cão".
Mas também nisso se descobre uma grande vantagem de notícias como esta: para além de nos permitirem louvar quem fez bem a sua obrigação (mesmo que fosse essa a sua obrigação), lembram-nos e demonstram-nos que não são "naturais" a incompetência, a desorganização, o desleixo ou o estar-se nas tintas, quando se assumiram responsabilidades públicas.
Nesse sentido, fazer bem o que deve ser feito torna-se em mais do que uma obrigação ou um exercício de competência. Torna-se um manifesto e uma exigência aos restantes poderes públicos.

Publicado por Paulo Granjo às 02:49 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 25, 2007

esta semana 3 - Regulações, proibições e purezas

Quem hoje lesse as crónicas de António Barreto e de Vasco Pulido Valente no Público, e lhes juntasse o conhecimento deste modesto e quase confidencial blog ("Linchem-se os Impuros", a 8 de Abril de 2007) era bem capaz de pensar que o ICS está cheio de perigosos libertários, em conspiração contra a santa obra de, regulando o que consumimos, fazer de nós pessoas mais puras e melhores.

Descansem os poderes instituídos. Não é assim. São por lá mais aqueles que acham que o meu cigarrinho, fumado à distância, lhes faz pior à saúde do que o fumo do seu carro faz à minha.

Mas dêem uma olhadela nessas crónicas. A do VPV nada adianta ao que já escreveu sobre o assunto; mas a do AB é assustadora, na mera enunciação do que tem vindo a ser proibido e na implícita sugestão de uma segunda razão para isso.

Publicado por Paulo Granjo às 06:33 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

esta semana 2 - Vasco X Miguel (Round 3)

Chegou-se ao 3º assalto do combate entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares.
4 páginas do primeiro no Público, desancando o mais recente livro do segundo, com base em argumentos de ignorância histórica e de pinderiquice de escrita.
Das luvas de boxe e eventual florete, passou-se agora à artilharia pesada, sem se poder sequer alegar que o homem não leu o livro.

O que se seguirá? Insultos às mãezinhas? "Revelações" pessoais que meio mundo já conhece? Um não metafórico duelo ao pôr-do-sol?
A malta vai acompanhando e curtindo.
Ele há ódios de estimação que são quase um serviço público.

Publicado por Paulo Granjo às 06:21 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

esta semana 1 - Sentença (in)Sana

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Fiquei tão embasbacado que preferi esperar para ver. Viu-se mais alguma coisa, mas o essencial manteve-se.

Há juízes capazes de considerar justa causa para despedimento (ou não renovação de contrato) de um cozinheiro o facto de ele ser seropositivo, com base na opinião tipo "eu cá acho que..." de médicos assumidamente não especialistas da matéria, um deles numa situação de conflito de interesses, e ao arrepio do que é consensual em termos científicos.
Mais: aplicando o princípio precaucionário de forma pioneira na jurisprudência portuguesa, considera que o caso "não tem a ver com riscos conhecidos, mas com a possibilidade desses riscos" - princípio que, sabe-se lá, talvez comece a ser aplicado aos campos electromagnéticos, às empresas potencialmente poluidoras ou perigosas e, talvez, à venda de automóveis, que apresentam sempre a "possibilidade do risco" de rupturas mecânicas ou avarias electrónicas casuadoras de acidentes, possivelmente mortais.

Embora nunca tenha acontecido, é de facto imaginável que um cozinheiro seropositivo se corte, derramando, sobre uma saladinha, sangue em quantidade suficientemente copiosa para contagiar alguém e que, sem que ninguém dê por isso, o dito acepipe seja servido em tempo recorde a um cliente cego e sem olfacto, de tal forma que o virus ainda esteja vivo quando o tal sangue lhe toca na ferida que tem na boca.
É curioso, no entanto, que este zelo precaucionário só se aplique a indivíduos fragilisados, e nunca aos grandes interesses económicos.
É curioso, também, que juízes prefiram acolher opiniões de mesa de café que confirmem os seus medos e idiossincrasias do que pareceres especializados que as contrariem.

Veio-se a saber mais tarde que, afinal, no julgamento original não tinham sido apresentados pareceres especializados, mas impressa da internet a informação disponibilizada pela agência estatal norte-americana que se dedica à prevenção e controle de doenças. O que mostra que, até para restabelecer a mais elementar justiça, é preciso ter dinheiro para pagar um advogado minimamente competente.
Quanto ao recurso para a Relação, o tribunal jura a pés juntos que não foi pedida a revisão dos factos dados como provados (que o tal senhor é seropositivo e que pode transmitir a sua situação, para além de pela saliva, pelo sangue, suor e lágrimas!) enquanto a outra parte jura que foi para esse efeito que, agora, se anexaram pareceres de especialistas.
Ou alguém mente, ou há incompetência mútua - pois, mesmo que seja verdade que o essencial não fosse pedido pelo advogado, que juízes são esses que têm entre mãos provas claras de que os "factos provados" não podem ser provados e olham para o lado?

Que respeito público esperam e julgam merecer, quando já são a única actividade em que uma declaração oficial de incompetência técnica (o provimento de um recurso, por verificação de erros processuais) não tem quaisquer consequências sobre a capacidade de exercer a profissão?

Publicado por Paulo Granjo às 05:07 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 23, 2007

Mais um livro que vale a pena


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Peguei nele mal voltei do lançamento, ontem, mas não quiz embandeirar em arco antes de lhe ler uma boa parte.

É uma selecção actualizada de artigos da Luísa Schmidt no Expresso que, todos juntos, nos dão um impressionante quadro global deste país e do que lhe andamos a fazer. Com a qualidade, o rigor, a acutilância e o humor do costume.

Recomendo vivamente!

Publicado por Paulo Granjo às 10:08 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Reflexões ociosas - 1

O problema dessa ideia caridosa de que o ridículo mata é que, normalmente, as potenciais vítimas mais merecidas não percebem a ironia (ou mesmo o sarcasmo) quando lhes é aplicado. Só se as coisas lhes forem ditas mesmo à bruta.

Publicado por Paulo Granjo às 01:15 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 13, 2007

O dia de todos os químicos

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Em Leça da Palmeira, umas explosões e fogo.
Não se sabe, nem interessa muito, a fonte de ignição. Interessa que havia uma concentração exagerada (como se provou) de hidrocarbonetos nos drenos e numa ETAR.
Por alguma purga de emergência, plausível após paragem de manutenção? Por uma também plausível acumulação de produtos em resultado dos próprios trabalhos de manutenção geral? Uma ou outra, agravada pelo deficit de atenção e cuidado que, um pouco por todo o mundo, costumam merecer os equipamentos que vão ser "passados à reforma"?
Talvez. E talvez até se venha a saber, mesmo que tais coisas venham a ser apresentadas como "normais", porque de facto são estranhamente "normais" nas cabeças de quem tem que pôr uma refinaria a funcionar depressa.

Para os lados de Aveiro, um desgraçado mandou um espirro mais forte e espalhou um camião de soda cáustica pela A1 fora...

Perto de Portalegre, uma ultrapassagem optimista cobriu a EN371 de ácido para trabalhar resinas e PVC.

Bem mais longe, o Mar Negro está negro de petróleo, depois do acidente de um navio que deveria estar proibido de navegar.

Uma ocasião para, sem alarmismos nem cabeças de avestruz, pararmos um pouco para pensar na nossa segurança, na do nosso país e na do nosso planeta (se é que não são uma só)?


Publicado por Paulo Granjo às 12:27 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

A Maldição da Cadeia 161

O Miguel Portas atou-me para sempre, aqui, à demoníaca Cadeia 161. Uma citação qualquer, de um livro qualquer, desde que da página 161.

Isso já me custou abrir a garrafa de sake que tinha amorosamente trazido (e guardado) de um bairro japonês numa cidade sul-americana, e descobrir que grande parte das minhas estantes anseiam pela visita de um espanador.

No livro que mais releio, um tal de Coronel Aureliano Buendia está, a páginas 161, letárgico com uma guerra civil que não adianta nem atrasa, respondendo ao anúncio da visita de uma delegação do seu Partido Liberal com um lapidar «Levem-nos às putas». Tem piada e algo mais, mas não sei se será a melhor citação para as gerações vindouras.
O poema que mais digo e recordo está num livro de menos de 161 páginas, tal como se fica pelas 126 o Corto Maltese en Sibérie que o transcreve entre imagens belíssimas.

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Inspiração divina! O Arranca Corações, do Boris Vian, tem exactamente 161 páginas impressas!
E na última diz,

«Devia ser maravilhoso estarem assim todos juntinhos, com uma pessoa para os acarinhar, assim dentro daquela gaiolinha tão quente, tão cheia de amor.»

São os tempos que correm, não?

Passo a bola às vítimas seguintes: Rogério Moreira, Miguel Cartaxo, Karin Wall, Cristiana Bastos e José Flávio Teixeira.

Publicado por Paulo Granjo às 12:42 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 09, 2007

90 anos da Revolução de Outubro

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Pois é. Foi anteontem mais um aniversário da Revolução de Outubro. Este, com um número bem redondo.
Assoberbado de trabalho por dois acontecimentos inadiáveis (um dos quais acabou por ser, à última hora, adiado por terceiros), não deu para um post digno e atempado.
Fica aqui a minha curta e modesta contribuição para as comemorações, antes que passe de todo a ocasião:

Disse um icone do século XX que «o primeiro dever de um revolucionário é fazer a revolução».
Acrescento que o segundo dever de um revolucionário é, saindo vitorioso, assegurar as condições de livre e efectiva oposição ao seu poder. A bem da revolução.

Publicado por Paulo Granjo às 09:35 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 07, 2007

Orçamento de quê?


E o previsível aconteceu.
Bastaram duas ou três fáceis frases assassinas para estilhaçar o mais vasto e desprotegido telhado de vidro da política portuguesa e reduzir a nada o mais surrealista dos nossos ex-primeiros-ministros.
Com isso, lá brilhou mais uma vez o novo rei da governação casmurra e autoritária, conseguindo mais uma vez disfarçar a inépcia governativa maquilhada de competência tecnocrática.
Entrementes, Louçã acabou por revelar, numa tentativa de piadinha com bastantes mais interpretações do que ele desejaria, o papel da restante oposição em todo este embróglio: o de meros espectadores que deram o dinheiro dos bilhetes por mal empregue.

Cada vez mais suspeito que Luís Filipe Menezes anda a manipular a imagem de ingenuidade, que lhe ficou do célebre episódio dos "sulistas, elitistas e liberais", para poder traçar em paz estratégias maquiavélicas.
Cada vez mais suspeito que este esperado suicídio/homicídio de Santana Lopes o tem como autor moral.

Publicado por Paulo Granjo às 09:55 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 04, 2007

Lisboa futurista em saldo

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Em Junho, a propósito do túnel do Marquês, fiz por aqui uma referência às aventuras de Filipe Seems.
Na altura, não consegui descobrir o primeiro album (o mais belo), "desaparecido em combate" na casa de um dos meus cunhados.
Reencontrei-o agora, em saldos da própria editora.
Para quem não conhece, convenham que, por 3 euros, vale a pena arriscar.
Eu, aconselho vivamente.

Publicado por Paulo Granjo às 11:13 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

novembro 03, 2007

A infância da literatura

Parámos hoje, a família e eu, numa dessas nobres e úteis inovações que são os cafés dentro de livrarias.
Íamos à procura de um livro chamado "A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça" pelo que, como imaginam, este não era um daqueles dias dedicados ao que os nossos pais e avós decidiram chamar, entre petulância e reverência, alta cultura.
Mas estávamos nós face às bicas, ao leitinho com chocolate e às torradas quando se iniciou, uns metros ao lado, a enésima (segundo percebi) divulgação de um livro de contos lançado há meses atrás.
O aspecto adolescente serôdio do autor (reforçado pelo do editor, que salientava a qualidade da escrita e a aposta ganha, visto que o livro estava quase esgotado) suscitou no meu coração quarentinho a expectativa da casual revelação de uma nova pérola literária.
A afirmação do contista de que o seu forte era escrever e não falar chegou depois de vários minutos de discurso que, se suscitavam dúvidas acerca da primeira parte deste seu statement, tinham tornado a segunda bastante evidente.
Confesso que, por essa altura, já o meu entusiasmo literário tinha esmorecido ao ponto de justificar, enquanto metáforas, as mais escabrosas piadas sobre disfunção eréctil de que se consigam lembrar. A curiosidade etnográfica, pelo contrário, crescia a olhos vistos. «Deve ser deformação profissional», pensei. «A tal de esquizofrenia cultural.»
Chegado ao fim da sessão, fiquei a saber que só por acidente bem involuntário poderei vir a descobrir se, afinal, o forte do homem é mesmo a escrita. Mas também acabei por aprender várias coisas.
Que o contista começou a escrever para concursos do jornal da escola secundária e que, como os ganhava com frequência, achou que se calhar até tinha jeito e valia a pena fazer umas coisas para um livro.
Que os amigos, sabendo que escreve contos, lhe perguntam se escreve para crianças e que, perante a sua negativa, assumem que o tema é o sexo - o que o escandaliza acerca da visão que as pessoas têm desse nobre género literário.
Que os contos se escrevem sem dor, pois a sua principal característica literária é terem duas ou três páginas.
Que considera uma crítica dizerem-lhe que os seus escritos têm interpretações diferentes em leituras diferentes, mas que prefere escrever complicado em vez de simples, pois quando se escreve simples as pessoas percebem logo e ninguém volta a ler.
Juntando isso com a informação do editor acerca do sucesso da obra, fiquei a saber muito sobre o autor, os seus amigos e os consumidores de escrita.
E também que ou o mundo está a ficar parvo ou eu estou a ficar velho.

Publicado por Paulo Granjo às 09:48 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 28, 2007

Afinal, o Salgado é bom

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Fiquei muito mais descansado ao ler o Expresso de hoje.
Afinal, o Miguel Sousa Tavares, que quando director da Grande Reportagem achava o Sebastião Salgado uma porcaria facilitista que nem sequer tinha visto na Serra Pelada (que o próprio grande jornalista e romancista visitou, fotografou e filmou) as cores, a alegria e a dignidade, gostou do novo livro do tal homem, África.

Estou certo que o Sebastião Salgado também ficou mais descansado.
Deve ser um alívio, para um gigante, saber que um anão deixou de o considerar baixinho.

Publicado por Paulo Granjo às 12:32 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 24, 2007

Prémio Sedas Nunes de Ciências Sociais - 2007

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Parabéns, Irene Pimentel.

Publicado por Paulo Granjo às 03:15 PM | Comentários (1) | TrackBack (0)

outubro 21, 2007

Reservem a quinta-feira

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Um seminário no ICS (a Entre-Campos, na primeira paralela à Av. das Forças Armadas), a que todos os interessados são bem-vindos.

Continue a ler "Reservem a quinta-feira"

Publicado por Paulo Granjo às 12:34 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 20, 2007

Que saudades que eu já tinha...

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Depois de arranjada e recuperada, pronta para venda, voltei à minha anterior e humilde casinha.
Acompanhado pela competencia fotográfica do Agostinho e com o gozo do Miguel a ressoar nos ouvidos: "As tuas casas só ficam au point quando sais delas para a seguinte..."
É. Antes, a sofreguidão da mudança é demasiada. Durante, há sempre qualquer coisa mais urgente para viver do que pintalgar caixilhos.
Agora, aquela luz a entrar pelas janelas sala dá-me vontade de por lá ficar.

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A passagem pelas Portas do Sol, com o seu hierático São Vicente e o Tejo em frente, lembra-me que era aí que lavava os olhos todas as manhãs, antes de ir trabalhar. Saudades, de novo.

E os esconsos do quarto da miúda lembram-me todas as brincadeiras da altura em que mais cresceu.

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Estou balhelhas, talvez. Ou saudosamente bacoco. Mas, se pudesse, nunca largaria esta casa.

Resto da reportagem em "continue a ler".

Informações para eventuais interessados em paulogranjo@yahoo.com.

Continue a ler "Que saudades que eu já tinha..."

Publicado por Paulo Granjo às 11:41 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 19, 2007

Birmânia 2

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Queixam-se os generais da Birmânia que a culpa é toda dos monges budistas.
Se eles tivessem ficado sossegadinhos nos conventos, em vez de virem para as ruas com a população atrás, os pobres homens não teriam sido obrigados a matar e a prender manifestantes.

É bom que alguém fale assim.
Quando temos ataques de complacência para com tiques autoritários, dissecando o grau o contexto e outras minudências, discursos destes sempre nos lembram que, como dizem os franceses, nestas coisas do poder o apetite cresce à medida que se come.

Publicado por Paulo Granjo às 02:02 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

É obra!

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Na eleição para líder parlamentar, o homem conseguiu perder os votos de 30% dos deputados que ele próprio tinha feito eleger, quando era líder partidário.

Ele há vocações que não se podem perder!

É obra!

Publicado por Paulo Granjo às 11:10 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Representatividade e Participação

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in Público de hoje

Escrevia-se aqui, já há alguns aninhos e a partir de uma extensa investigação, que os trabalhadores - estivessem mais críticos ou moderadamente satisfeitos em relação à forma como os sindicatos actuavam - cada vez menos se disponibilizavam a participar neles, embora os considerassem seus representantes e considerassem essa representação e defesa laboral um direito que lhes assistia, enquanto trabalhadores e cidadãos. Como um serviço público. Da mesma forma que se considera um direito ter escolas, hospitais, esgotos, policiamento e segurança social.

Com essa visão institucionalizadora por parte das pessoas, concluíamos, a própria noção clássica de representatividade sindical (com base na "contagem de espingardas" do número de sócios) era anacrónica, pela grande decalage entre quem aceita participar e o conjunto de todos aqueles que se consideram e exigem ser representados. Seria mais lógico pensar acerca da representatividade sindical de uma forma algo semelhante àquela que está subjacente às eleições primárias norte-americanas - não em função de uma filiação formal, mas em função do reconhecimento, por cada indivíduo, de uma representação preferencial.
Nada me indica que a situação se tenha alterado de forma significativa, nestes últimos anos.

Mas isto também quer dizer que, quando as pessoas participam e o fazem massivamente, essa participação é muito mais significativa (acerca da situação vivida e do seu descontentamento em relação a ela) do que nas alturas em que participar seja considerada uma coisa normal - como era, por exemplo, há uns 30 anos atrás. A excepcionalidade do acto demonstra a excepcionalidade do grau de descontentamento.

Poderá o nosso Primeiro querer ver em manifestações de descontentamento meras manipulações partidárias, e afirmá-lo publicamente de forma serôdia. Mas isso só o fragiliza e projecta uma imagem de odioso - não tanto junto dos manifestantes, mas sobretudo daqueles que não o foram.

Publicado por Paulo Granjo às 10:18 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Quartel-General em Abrantes

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in Público de hoje

Resolvidos os pesos relativos dos governos, resolveu-se a governância a curto prazo da instituição.
Falta resolver a democratização a partir do voto directo e o que é e deve ser o projecto europeu.
Mas não faz mal. Os governos e os burocratas pensam por nós.

Será que me estou a tornar federalista?

Publicado por Paulo Granjo às 10:04 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)

outubro 16, 2007

Mestrados e Bolsas

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Começa hoje o II Mestrado de Antropologia Social e Cultural, lá no ICS.

Junto com os restantes alunos, deveriam estar dois assistentes universitários, que tiveram as melhores médias de sempre na licenciatura de antropologia da Universidade Eduardo Mondlane.
Não estão, porque a bolsa paga pelo IPAD (cooperação portuguesa) não lhes foi atribuída, pois o Ministério da Educação moçambicano, que gere e canalisa os pedidos, alegou que tinha passado o prazo.

Acontece que a sua aceitação como mestrandos foi feita excepcionalmente cedo, para que não existissem problemas desse tipo, mas só poderiam cobrir o prazo de candidatura, em qualquer universidade normal, se se candidatassem já para o ano seguinte.
Acontece também que, em conversa com bolseiros estudando em Portugal, com bolsa do Estado português, pude concluir que conseguiram obtê-las tendo "cunhas" no Ministério da Educação moçambicano, ou torneando o sistema através de formas lícitas, mas que não citarei.

Compreendo que a cooperação entre Estados não deve marginalisar um desses Estados. Mas, assim, talvez seja o Estado português a ficar marginalizado do processo, a não ser como pagador.
Compreendo que, noutros tempos, o Estado moçambicano queria controlar os seus quadros e respectivo regresso, estando uma simples viagem de férias dependente de várias autorizações estatais. Mas os tempos são, a esse respeito, felizmente outros.
Compreendo que a actual tendência de "bypassar" os Estados, para canalizar as "ajudas" e projectos directamente para os supostos beneficiários, tem custos e efeitos preversos sobre a governância estatal.
Mas isto cheira suficientemente mal para exigir um reequacionar dos procedimentos.

Publicado por Paulo Granjo às 11:10 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)